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Segurança alimentar e pandemia

A pandemia do novo coronavírus tem tido um impacto incontestável na população mundial. Para além da doença em si, a alta dos preços de produtos e serviços e do desemprego, colocaram o Brasil novamente no Mapa Mundial da Fome. Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, nos anos de 2017 e 2018, 73,9% dos domicílios que apresentavam insegurança alimentar grave eram compostos por pessoas negras, que representam 75% da população pobre, de acordo com o informativo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, também do IBGE. E esse número, que já era extremamente preocupante, cresceu significativamente em 2020, onde a fome chegou a atingir 19 milhões de brasileiros. Convidamos nosso parceiro Ruan Felix, que além de chefe de cozinha que debate uma alimentação saudável e acessível a todos, também vive na pele os desafios de praticar isso a partir da periferia.



Foto de divulgação Ruan Felix



Texto por Ruan Felix


Jornais e revistas dedicam uma boa parte de seu espaço à divulgação de novos estudos dietéticos de maneira duvidosa. Falam sobre qual alimento está na moda e qual é o melhor pra sua saúde, enquanto demoniza um alimento aqui, outro alimento acolá.

Logo em seguida entra a indústria alimentícia, incentivando o consumo de seus produtos duvidosos com cara de comida com base nas alegações da primeira. O governo, corrompido ($$) pela segunda, entra logo depois, derrubando as poucas políticas de segurança alimentar e nutricional que continuam de pé.

E dentre as políticas que vêm sendo atacadas está o Guia Alimentar da População Brasileira. Esse guia é um documento que traz conceitos e recomendações para escolhas alimentares saudáveis sem conflito de interesses (a relação mídia-indústria-governo ali de cima, sabe?) e baseadas em evidências científicas, promovendo a saúde da população.


Para além de falar somente sobre alimentos, o Guia também trata sobre o que é comida de verdade, sobre o ato de comer, sobre a cadeia de produção dos alimentos, prevenção de enfermidades e sutilmente nos orienta a romper com uma alimentação baseada em veneno e antibióticos. Quando foi decidido que as embalagens de cigarro deveriam estampar que o tabagismo mata, essa decisão enfureceu e revoltou diversas empresas e associações da indústria tabagista - E quando um documento de tamanha importância como o Guia Alimentar nos diz para evitar industrializados, veneno e antibióticos, quem você acha que se enfurece?


O Guia mexe nos bolsos dos poderosos, que lucram às custas da nossa saúde. Não à toa, nossa ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, enviou ofício ao ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, solicitando uma revisão urgente do Guia, acompanhado de uma nota técnica que buscava negar as evidências científicas sobre o mal que produtos industrializados nos causam.


Parece difícil falar sobre alimentação saudável num cenário onde um pacote de arroz custa 40 reais, onde o auxílio mal paga o gás de cozinha, onde cada vez mais brasileiros voltam a sofrer de desnutrição e fome. Que difícil falar sobre a importância do ato de comer e sobre como cozinhar suas refeições, comer devagar e em uma mesa com boa companhia, quando moramos a um trem-metrô-ônibus do nosso trabalho e um miojo parece se encaixar melhor no tempo que nos sobra (ou falta). Parece difícil falar sobre escolhas e variedades alimentares se quando vamos comer compramos aquilo que vende próximo de nós e/ou aquilo que o nosso dinheiro pode comprar. Quem decide por nós então?


E com o Brasil voltando ao mapa da fome, os ataques constantes ao Guia, o desmonte das demais políticas de segurança alimentar e nutricional, a ausência de um auxílio emergencial decente e de políticas de abastecimento capazes de frear o aumento absurdo do preço dos alimentos e de oferecer suporte aos agricultores familiares, o que vai ser de nós quando a “boiada passar” por inteiro?


Essa é uma discussão lenta e sem respostas exatas. Às vezes até me questiono se ainda temos tempo para achá-las e aplicá-las numa tentativa de reverter essa situação. Cabe a mim e meus companheiros cozinheiros, amigos nutricionistas, jornalistas, artistas, todos que ainda possuem uma mínima estrutura, nos mobilizarmos e estruturarmos coletivamente por aqueles que não podem. “É preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre.”


Sinto muito se as mínimas respostas que temos até parecem envolver apenas o âmbito individual. Parece ser mais um peso nas costas da gente que já anda tão cansado. Mas se eu me conscientizo, e não fico feliz o bastante de saber que apenas eu estou consciente, desejo que as pessoas próximas de mim também assim estejam, e assim em diante, talvez em algum momento tenhamos a força e mobilização necessária para mudar essa estrutura. Cabe a nós não nos rendermos e continuar nessa luta. “Só a luta muda a vida.”



Foto de divulgação Ruan Felix




Ruan Felix é chefe de cozinha especializado na gastronomia baseada em plantas e acredita no resgate da culinária regional que valoriza elementos vegetais nativos de forma acessível a todos. Entende cozinha e ativismo como partes indissociáveis, que influenciam diretamente no seu modo de viver.