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  • Vic Witsch

Impressões Suburbanas

Projeto criado pela Geanine Souza, que busca revelar a arquitetura suburbana anônima na paisagem cultural da cidade.

Imagens: Google Street View, com edição de Geanine Souza

Iniciado em 2020, o perfil no Instagram vem desde então revelando a essência das construções suburbanas de outra época. Realizadas, na maioria das vezes, por profissionais que não frequentaram as escolas formais de arquitetura e engenharia, mas se inspiravam em elementos e nas tipologias já existentes e em voga, criando um repertório único, como afirma Dinah Guimarães e Lauro Cavalcanti em ‘Arquitetura Kish Suburbana e Rural’:


“... existem pessoas que ainda se exprimem através da construção/elaboração de seu espaço próprio. Elas constroem sem o fardo de uma arquitetura oficial, embora ás vezes possam apoderar-se de alguns de seus elementos, adaptando-os dentro de um repertório pessoal.”

Sendo assim, Geanine diz que seu objetivo com o perfil é:

“Dar visibilidade à arquitetura anônima dos subúrbios e periferias do Rio, validando sua posição como elemento essencial à paisagem cultural local. Por sua vez, a expressão arquitetura anônima refere-se àquelas construções erguidas sem a orientação de profissional licenciado, e sob a batuta do mestre de obras.”

Em suas análises ela traz a localização das imagens, as referências construtivas daquele exemplar e sua história, valorizando a arquitetura anônima suburbana e trazendo sua relevância para a paisagem cultural da cidade e, por isso, afirma que:


“A arquitetura anônima dos subúrbios cariocas é testemunha material das transformações históricas ocorridas na cidade. Por isso, ela é referência na construção da identidade coletiva.”

Acompanhe abaixo alguns de seus estudos com exemplares arquitetônicos dos bairros de Senador Vasconcelos, Turiaçu, Olaria e Irajá

Imagens: Google Street View, com edição de Geanine Souza

Localizada em Senador Vasconcelos, podemos dizer que a construção fez parte de um programa de difusão de projetos residenciais econômicos elaborado pelo governo Vargas. Tal programa visava combater a “promiscuidade macabra das favelas”. Esta expressão, utilizada pelo Interventor do Distrito Federal Henrique Dodsworth, nos permite inferir que por trás das casinhas de vó, como dizem alguns, há complexos movimentos sociais.

Imagens: Google Street View, com edição de Geanine Souza

A arquitetura kitsch, pejorativamente associada ao cafona, no Impressões Suburbana, ganhará um outro olhar. Desta vez, com um maior embasamento trazido por Dinah Guimaraens e Lauro Cavalcanti, autores do livro Arquitetura kitsch suburbana e rural (Paz e Terra, 2006).


Para estes autores o termo kitsch deve ser compreendido como um fenômeno cultural ligado à ascensão econômica das classes sociais menos favorecidas. A melhoria do poder aquisitivo destes grupos promove a inteiração entre um código estético mais popular, e outro mais ligado ao gosto das elites. Da síntese entre o popular e o erudito nasce o kitsch.

Sendo assim, o kitsch não seria uma submissão a um padrão imposto pelas elites, muito menos uma interpretação empobrecida do mesmo. O kitsch está diretamente associado a uma leitura própria, corajosa e independente dos códigos estéticos socialmente aceitos. Este é o kitsch libertário.

A fachada da imagem localiza-se em Turiaçu e, segundo Dinah Guimaraens e Lauro Cavalcanti, ao vermos a utilização de cores fortes em monocromia ou em alegres padronagens, muito provavelmente, estamos diante do kitsch libertário em sua versão afro. Tais manifestações brotam do inconsciente coletivo e reivindicam seu espaço na paisagem cultural do Rio e periferias.

Conhecer a arquitetura da Belle Époque carioca é fundamental para entender a história do Rio de Janeiro. Esta fase, que teve início ao final do séc. XIX e durou até meados da década de 1920, teve como uma de suas características o contato entre várias linguagens estéticas. Daí o termo ecletismo para representar esta diversidade arquitetônica.


A Belle Époque foi cenário de grandes mudanças. Uma delas foi a influência da Revolução Industrial, e a outra foram as transformações políticas, geradas pela transição Império/República. A absorção de todas essas informações, certamente, se fez presente na arquitetura anônima da época.


O imóvel da imagem resiste em Olaria entre dois prédios altos. Ele, como os demais da belle époque, seguem os ditames da Escola de Belas Artes de Paris. No Brasil, os parâmetros desta instituição vieram para refutar o neoclassicismo imperial, estilo da monarquia brasileira. Enquanto o neoclassicismo imperial criava certo distanciamento, devido a sua imponência, a arquitetura da belle époque buscava contato. Daí a presença dos mascarões em estuque na fachada das edificações.

As linhas desta casa em Irajá evidenciam sua ligação com a arquitetura moderna, que, por fundamento, é pouco afeita a hierarquias entre os ornamentos. Entretanto, é impossível que nossas retinas não se sintam estimuladas pela visão do painel localizado ao centro da platibanda. Suas cores intensas contrastam com tom discreto da pintura do imóvel, revelando as intensões do construtor/construtora em compartilhar seu universo pessoal.


Estes sessenta azulejos formam uma paisagem de cunho academicista, haja vista a simetria e a forma idealizada de representar a natureza. Todavia, os tons quentes, aquecedores até mesmo das geleiras da paisagem de inverno, transformam esse quadro em um exercício de empatia, nada devendo aos painéis de azulejos de boas vindas da tradição portuguesa.


A arquitetura moderna, nos subúrbios e periferias do Rio, findou por permitir uma interface maior entre um padrão estético movido por novas tecnologias e o infinito-particular da população.